Chegar aos 40 anos não significa que a mulher esteja doente, velha ou entrando em uma fase de perda. É uma etapa da vida marcada por transformações importantes, e uma das principais é a transição hormonal que pode acontecer nos anos que antecedem a menopausa.
Essa fase é chamada de climatério. Dentro dela acontece a perimenopausa, período em que os ovários começam a apresentar alterações na produção hormonal e os ciclos menstruais podem ficar diferentes. A menopausa propriamente dita é definida retrospectivamente, quando a mulher passa 12 meses consecutivos sem menstruar, desde que não exista outra causa para a ausência da menstruação.
Segundo informações do Ministério da Saúde, o climatério costuma começar por volta dos 40 anos e a menopausa acontece, em geral, entre os 45 e 55 anos. Entretanto, cada mulher apresenta uma experiência diferente.
Portanto, uma mulher de 40, 42, 45 ou 48 anos pode estar passando por uma fase de grandes alterações hormonais mesmo continuando a menstruar.
O que acontece com os hormônios?
Durante a vida reprodutiva, os ovários produzem principalmente estrogênio e progesterona, hormônios que participam do ciclo menstrual, da ovulação, da saúde dos ossos, do aparelho genital, da sexualidade e de diversos outros processos do organismo.
À medida que a mulher se aproxima da menopausa, a atividade dos ovários começa a mudar. A produção hormonal não necessariamente cai de maneira constante e previsível. Ela pode oscilar bastante.
Por isso, a mulher pode passar por períodos em que parece estar completamente normal e, depois, apresentar uma série de sintomas.
Essa oscilação hormonal ajuda a explicar por que algumas mulheres dizem:
“Um mês estou bem, no outro parece que meu corpo virou outro.”
A transição não acontece da mesma maneira para todas.
Menstruação irregular
Uma das primeiras mudanças percebidas pode ser justamente na menstruação.
O ciclo pode ficar mais curto ou mais longo. A menstruação pode vir antes ou depois do esperado. O fluxo pode ficar mais intenso, mais fraco ou durar mais ou menos dias.
Também podem acontecer períodos em que a mulher fica algumas semanas ou meses sem menstruar e depois volta a menstruar.
Isso pode fazer parte da perimenopausa, mas não significa que toda alteração menstrual depois dos 40 seja causada pelos hormônios.
Miomas, pólipos, alterações da tireoide, anemia, gravidez, alterações do endométrio e outras condições também podem causar mudanças no sangramento.
Por isso, alterações importantes ou persistentes devem ser avaliadas por um profissional de saúde.
O Ministério da Saúde destaca que irregularidades menstruais fazem parte das manifestações possíveis do climatério, mas também reforça a importância do acompanhamento médico.
Ondas de calor e suor noturno
Os famosos “calores” ou fogachos são um dos sintomas mais conhecidos da transição menopausal.
A mulher pode sentir uma onda repentina de calor principalmente no rosto, pescoço e tórax, acompanhada ou não de vermelhidão, suor, palpitações, ansiedade ou tontura.
Quando acontecem durante a noite, podem provocar despertares frequentes.
E aqui começa um ciclo importante:
A mulher sente calor, acorda, dorme mal, acorda cansada, fica mais irritada durante o dia e começa a ter dificuldade de concentração.
Ou seja, nem sempre o problema é apenas o calor.
O sono prejudicado pode aumentar o impacto de vários outros sintomas.
Sono ruim e cansaço
Depois dos 40, algumas mulheres começam a perceber que não dormem mais como antes.
Podem ter dificuldade para pegar no sono, acordar várias vezes durante a noite ou despertar muito cedo.
Em algumas mulheres, os suores noturnos são responsáveis por parte desse problema.
Mas o sono também pode ser prejudicado por ansiedade, estresse, alterações emocionais, dores, problemas respiratórios, medicamentos, hábitos de vida e diversas outras causas.
Por isso, não é correto simplesmente dizer que toda insônia depois dos 40 é “falta de hormônio”.
É preciso investigar.
Irritabilidade e falta de paciência
Uma mulher que sempre foi tranquila pode perceber que está mais impaciente.
Coisas pequenas começam a incomodar.
Ela pode sentir que está “sem pavio”.
Pode ficar mais sensível, chorar com facilidade ou sentir alterações repentinas de humor.
Isso pode acontecer durante a transição menopausal e pode ser agravado pela privação de sono, estresse, mudanças na vida, problemas familiares, sobrecarga, ansiedade e outros fatores.
É importante compreender que o hormônio pode participar desse processo, mas ele não explica sozinho toda a vida emocional da mulher.
A mulher de 40 ou 50 anos continua sendo uma pessoa inserida em uma realidade social, familiar, profissional e afetiva.
Ela pode estar cuidando dos filhos, dos pais, do casamento, do trabalho, das contas e de inúmeras responsabilidades.
Por isso, olhar somente para o hormônio pode ser uma forma muito limitada de compreender essa mulher.
Desânimo, tristeza e depressão
Alterações de humor podem aparecer durante a perimenopausa e menopausa.
Algumas mulheres relatam tristeza, ansiedade, irritabilidade, falta de motivação, dificuldade de concentração, sensação de estar emocionalmente diferente e perda de interesse por atividades que anteriormente proporcionavam prazer.
Entretanto, existe uma diferença importante entre uma oscilação de humor e uma depressão.
Depressão é uma condição de saúde que merece avaliação profissional.
Se a mulher apresenta tristeza persistente, perda de interesse ou prazer, isolamento, alterações importantes do sono ou apetite, sensação de inutilidade, desesperança ou pensamentos relacionados à morte, é necessário procurar ajuda profissional.
Não se deve simplesmente dizer:
“É a menopausa.”
A mulher merece investigação e cuidado.
A própria literatura médica ressalta que sintomas como ansiedade e depressão podem ocorrer nessa fase, mas não são exclusivos da menopausa.
Falta de vontade de sair
Algumas mulheres começam a evitar encontros, festas, viagens ou atividades que antes gostavam.
Às vezes porque estão cansadas.
Às vezes porque não estão dormindo bem.
Às vezes porque não se sentem bem com o próprio corpo.
Às vezes porque estão deprimidas ou ansiosas.
E, em alguns casos, existe uma combinação de todos esses fatores.
A falta de vontade de sair não deve ser automaticamente considerada “preguiça”.
Quando ela representa uma mudança importante no comportamento da mulher, merece atenção.
Memória, concentração e o chamado “nevoeiro mental”
Durante o climatério, algumas mulheres relatam dificuldade para se concentrar, esquecer palavras, esquecer compromissos ou sentir que a cabeça está mais lenta.
Esse fenômeno é frequentemente chamado de “brain fog”, ou nevoeiro mental.
Problemas de sono, estresse, ansiedade e alterações hormonais podem contribuir para essas queixas.
Isso não significa que a mulher esteja desenvolvendo demência.
Mas alterações cognitivas persistentes ou muito intensas devem ser avaliadas.
Dores musculares e articulares
Outra queixa relativamente comum nessa fase é o aparecimento ou aumento de dores musculares e articulares.
A mulher pode começar a sentir:
dor nas costas;
dor nos joelhos;
dor nos ombros;
rigidez;
desconforto muscular;
sensação de corpo pesado.
Esses sintomas podem aparecer no climatério, mas também podem ter diversas outras causas.
Por isso, novamente, não é adequado atribuir toda dor ao estrogênio.
É necessário avaliar alimentação, atividade física, sono, peso corporal, doenças prévias, medicamentos, deficiência de nutrientes e outras possíveis causas.
Mudanças no peso e na distribuição da gordura
Muitas mulheres percebem que depois dos 40 anos o corpo começa a armazenar gordura de maneira diferente.
É comum ocorrer maior concentração de gordura na região abdominal.
Isso não significa que toda mulher necessariamente engordará durante a menopausa.
Idade, genética, alimentação, sono, atividade física, massa muscular, metabolismo e alterações hormonais participam desse processo.
Por isso, essa fase deve ser encarada como uma oportunidade para cuidar da massa muscular, da alimentação, do coração e dos ossos.
A sexualidade depois dos 40
Esse é um assunto que precisa ser tratado com naturalidade.
A mulher não perde sua sexualidade porque chegou aos 40, 50 ou 60 anos.
Entretanto, o corpo pode mudar.
A diminuição do estrogênio pode provocar alterações na região genital e urinária.
A vagina pode ficar mais seca, a mucosa pode ficar mais fina e algumas mulheres podem sentir ardência, irritação ou desconforto.
A relação sexual, que antes era prazerosa, pode começar a provocar dor.
E quando uma relação começa a doer, é natural que o cérebro passe a associar sexo ao desconforto.
A mulher pode então evitar relações.
Pode perder o desejo.
Pode ficar ansiosa antes da relação.
Pode começar a acreditar que “não gosta mais de sexo”.
Mas, em algumas situações, o problema não é simplesmente falta de desejo.
Pode existir dor, secura vaginal, alteração hormonal, dificuldade de excitação, problemas no relacionamento, ansiedade, medicamentos ou outras condições.
A sexualidade precisa ser investigada de maneira integral.
A FEBRASGO publicou, em 2025, material específico sobre climatério e sexualidade e destacou que a queda do desejo, a secura vaginal e a dor durante as relações podem acontecer nessa fase. A ginecologista e sexóloga Dra. Sandra Cristina Poerner Scalco, membro da Comissão Especializada em Sexologia da FEBRASGO, ressaltou que a sexualidade continua sendo parte importante da saúde feminina.
Libido baixa
A libido pode diminuir durante a transição menopausal.
Mas libido não é apenas hormônio.
Desejo sexual também envolve:
sono;
estresse;
autoimagem;
relacionamento;
saúde mental;
dor;
medicamentos;
experiências anteriores;
qualidade da relação;
cansaço;
contexto emocional.
Por isso, quando uma mulher procura ajuda por falta de desejo sexual, o profissional precisa olhar para a mulher inteira.
Autor- Lucia Martins
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