acompanhando nossos filhos
Quando falamos sobre adolescência, precisamos entender que não estamos falando apenas de uma idade. Estamos falando de uma fase de transformação. O adolescente está deixando para trás a infância e começando a construir sua identidade, seus pensamentos, seus valores e a maneira como deseja ocupar seu espaço no mundo.
Para os pais, essa fase também pode ser desafiadora. Muitas vezes, olhamos para aquele filho que ainda parece ser o nosso menino ou a nossa menina e, ao mesmo tempo, percebemos que ele já não pensa como antes. Ele começa a questionar, a discordar, a querer mais liberdade e a demonstrar opiniões próprias.
Foi exatamente isso que vivi quando meu filho mais velho entrou na adolescência.
Eu me lembro de pensar: “E agora, como vai ser?”. Eu estava realmente perdida. Até aquele momento, eu sabia como cuidar de uma criança, mas percebi que precisava aprender a lidar com aquela nova fase.
Foi então que tomei uma decisão: eu iria estudar.
E quando digo estudar, digo estudar de verdade. Procurei livros, revistas, artigos, informações na internet e outros materiais. Cheguei a procurar artigos em bibliotecas. Eu queria entender o adolescente, porque não queria simplesmente reagir aos comportamentos do meu filho. Eu queria compreender o que estava acontecendo.
Havia também uma razão muito pessoal para essa busca.
Eu não queria ser com meus filhos aquilo que meus pais foram comigo.
Eu sabia que carregava experiências da minha própria adolescência e que poderia, sem perceber, repetir comportamentos que haviam me machucado. Por isso, precisei olhar para a minha própria história e, ao mesmo tempo, aprender uma nova maneira de exercer a maternidade.
Foi nesse processo que comecei a entender que educar um adolescente não significa ter todas as respostas. Significa estar disposta a aprender.
Quando o adolescente começa a questionar
Uma das primeiras mudanças que percebemos é que o adolescente começa a questionar praticamente tudo.
Aquela criança que antes aceitava muitas orientações dos pais começa a perguntar: “Por quê?”.
Por que eu tenho que fazer isso?
Por que não posso sair?
Por que meu irmão pode e eu não?
Por que você não deixa?
Por que todo mundo pode e eu não?
Essas perguntas podem irritar os pais, principalmente quando são repetidas muitas vezes ou acompanhadas de respostas atravessadas.
Mas precisamos compreender que questionar também faz parte do crescimento.
O adolescente está começando a construir suas próprias opiniões. Ele precisa aprender a pensar, analisar, discordar e tomar decisões. Isso não significa que devemos aceitar qualquer comportamento, mas significa que precisamos aprender a diferenciar uma opinião diferente de uma atitude desrespeitosa.
Um filho pode discordar da mãe.
Pode dizer que não concorda.
Pode apresentar seus argumentos.
O que ele não pode é usar essa discordância como justificativa para agredir, humilhar ou desrespeitar.
É possível ensinar isso sem transformar cada conversa em uma guerra.
Rebeldia não significa simplesmente falta de educação
Quando pensamos em adolescência, muitas vezes pensamos imediatamente em rebeldia.
Mas precisamos olhar um pouco mais profundamente.
O adolescente pode estar tentando conquistar autonomia. Ele quer sentir que tem algum controle sobre a própria vida. Quer escolher suas roupas, seus amigos, seus interesses, sua aparência, suas músicas, seus horários e muitas outras coisas.
É justamente nesse momento que os pais precisam aprender a escolher suas batalhas.
Existem coisas que realmente precisam de limite.
Existem outras que podem ser apenas diferenças de gosto ou de opinião.
Se o adolescente quer usar uma roupa que a mãe não escolheria para ele, talvez seja uma situação que possa ser conversada.
Se ele quer ouvir uma música que a mãe não gosta, isso pode ser apenas uma diferença de preferência.
Mas se ele quer sair de madrugada sem que ninguém saiba onde está, estamos falando de segurança.
Se está envolvendo-se em brigas, colocando outras pessoas em risco ou fazendo algo que pode trazer consequências graves, a situação é diferente.
Nem tudo precisa virar uma batalha.
Mas algumas coisas precisam de limite.
A diferença entre limite e controle
Essa diferença é fundamental.
Limite é dizer ao adolescente aquilo que é aceitável ou não dentro de determinada situação.
Controle é tentar decidir todos os aspectos da vida dele.
Quando meu filho era adolescente, eu precisava estabelecer regras. Não aceitava que ele ficasse na rua até altas horas sem que eu soubesse onde estava. Não aceitava determinadas situações envolvendo bebidas, brigas ou comportamentos que colocassem sua segurança ou a segurança de outras pessoas em risco.
Isso fazia parte da minha responsabilidade como mãe.
Mas também precisava entender que meu filho estava crescendo.
Eu não poderia querer controlar para sempre cada escolha que ele faria.
Um dia ele seria adulto.
E foi justamente isso que aprendi a explicar.
“Quando eu fizer 18 anos, vou fazer o que eu quiser”
Eu me lembro de um dia em que meu filho me disse que, quando fizesse 18 anos, seria maior de idade e poderia fazer o que quisesse.
Eu respondi:
“Tudo bem. Quando você tiver 18 anos, você será maior de idade e será responsável pelas suas escolhas. Mas enquanto morar na minha casa, existem as regras da minha casa. Você pode ter 18, 30 ou 40 anos. Se estiver morando aqui, vai precisar respeitar as regras deste lugar.”
Eu acreditava nisso e continuo acreditando.
Mas existe uma diferença muito importante: estabelecer regras dentro de casa não significa controlar a vida de um filho adulto.
Se meu filho adulto mora comigo, precisamos ter regras de convivência.
Por exemplo, existem coisas que eu não aceito dentro da minha casa, independentemente de a pessoa ser adolescente ou adulta.
Na minha casa, bebida não entra.
Isso não significa que eu possa decidir se um filho adulto vai beber ou não quando estiver vivendo a própria vida. Ele é responsável pelas próprias escolhas.
Significa apenas que, dentro da minha casa, existe uma regra que precisa ser respeitada.
Essa diferença é muito importante para que os filhos também compreendam o que significa autonomia.
Regras da casa precisam valer para todos
Uma regra fica muito mais justa quando não é criada apenas para controlar uma pessoa.
Se eu digo que durante as refeições não quero celulares à mesa, essa regra deve valer para todos.
Não adianta exigir que o adolescente coloque o celular de lado enquanto os adultos continuam olhando mensagens.
A mesa pode ser um momento da família.
Um momento para conversar, perguntar como foi o dia, ouvir o outro, contar alguma coisa, rir e simplesmente estar presente.
Hoje, o celular faz parte da nossa vida, mas precisamos ensinar que nem todo momento precisa ser ocupado por uma tela.
O adolescente precisa aprender isso, mas os adultos também.
A casa é responsabilidade de todos
Outra regra que considero fundamental é a divisão das tarefas.
Durante muito tempo, em muitas famílias, as tarefas domésticas foram colocadas principalmente sobre as mulheres.
Eu não penso assim.
Se todos moram na casa, todos podem participar.
Não importa se é homem ou mulher.
O filho homem também precisa aprender a cozinhar, lavar louça, lavar roupa, limpar a casa, organizar suas coisas, cuidar do próprio quarto e participar das responsabilidades familiares.
Não devemos ensinar um menino que ele está “ajudando a mãe” quando faz uma tarefa doméstica.
Ele não está ajudando a mãe.
Ele está cumprindo uma responsabilidade dentro da casa onde também vive.
Esse aprendizado vai acompanhá-lo para a vida adulta.
Um dia ele poderá morar sozinho, casar, ter filhos ou simplesmente construir sua própria vida. Saber cuidar de uma casa não é uma habilidade feminina. É uma habilidade para a vida.
Autor- Lucia Martins
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