Existe uma coisa que precisamos parar de ensinar aos nossos filhos homens: que serviço doméstico é coisa de mulher.
Arrumar a cama, lavar a louça, cozinhar, limpar o banheiro, colocar a roupa para lavar, passar uma roupa, organizar a casa ou cuidar dos filhos não diminui a masculinidade de ninguém.
Pelo contrário.
Ensinar um menino a cuidar da própria casa é ensiná-lo a ser independente, responsável e capaz de cuidar de si e das pessoas com quem escolher dividir a vida.
E essa educação começa dentro de casa.
Ele não está “ajudando” a mãe
Essa palavra merece atenção.
Quando um menino coloca a mesa, lava a louça ou arruma o próprio quarto, ele não está ajudando a mãe.
Ele está fazendo a parte dele.
A casa também é dele.
A bagunça também é responsabilidade dele.
A comida que ele come também exige trabalho.
A roupa que ele veste não aparece limpa e dobrada por mágica.
Quando ensinamos uma menina a fazer tudo isso e dispensamos o menino, estamos ensinando, mesmo sem perceber, que cuidar da casa pertence ao feminino.
E ele pode levar essa ideia para a vida adulta.
E quando ele se casar?
É aqui que essa educação se torna ainda mais importante.
Imagine um homem que cresceu acreditando que a mulher deve cozinhar, limpar, organizar a casa, cuidar dos filhos e ainda trabalhar fora.Agora imagine a mulher ao lado dele trabalhando oito horas por dia, tendo responsabilidades profissionais, preocupações financeiras, compromissos e também participando da criação dos filhos.
Por que ela deveria chegar em casa e assumir sozinha um segundo turno?
A casa pertence aos dois.
Os filhos pertencem aos dois.
As responsabilidades precisam ser conversadas e distribuídas de acordo com a realidade daquela família.
Não existe masculinidade em chegar em casa e esperar que outra pessoa cuide de tudo.
Existe responsabilidade quando um adulto olha ao redor e percebe o que precisa ser feito.
A mulher de hoje não é a mulher de algumas décadas atrás
As mulheres estudam.
Trabalham.
Empreendem.
Administram empresas.
Pagam contas.
Participam das decisões financeiras da família.
Cuidam dos filhos.
Cuidam dos pais.
Constroem carreiras.
E muitas vezes fazem tudo isso enquanto ainda carregam uma parte enorme das tarefas domésticas.
A própria OCDE mostra que a desigualdade no trabalho doméstico não desapareceu: em média, nos países da organização, as mulheres dedicam aproximadamente o dobro do tempo dos homens ao trabalho doméstico e de cuidado não remunerado.
E existe ainda uma parte que quase ninguém vê: o trabalho mental.
É lembrar da consulta do filho.
Perceber que o arroz acabou.
Marcar o médico.
Comprar o presente.
Conferir a mochila.
Lembrar da conta.
Planejar a comida da semana.
Saber que determinada roupa precisa ser lavada.
Esse trabalho de pensar, antecipar e organizar também consome energia.
A OCDE chama atenção justamente para essa dimensão invisível do trabalho doméstico e de cuidado.
O que estamos ensinando quando damos tarefas diferentes para meninos e meninas?
Um estudo publicado em Labour Economics analisou como os papéis relacionados ao trabalho doméstico podem ser transmitidos de uma geração para outra. Os pesquisadores encontraram evidências de que os comportamentos dos pais funcionam como um importante modelo para os filhos e que a participação dos pais nas tarefas domésticas está relacionada aos padrões que os filhos levam para suas próprias famílias no futuro.
Isso nos faz pensar.
Talvez a educação para uma relação mais equilibrada não comece quando nossos filhos se casam.
Talvez comece quando eles ainda são pequenos e recebem a primeira tarefa dentro de casa.
Ensinar o menino a cozinhar é ensinar independência
Um filho que sabe preparar sua própria comida não depende de uma mulher para comer.
Um filho que sabe lavar suas roupas não depende de uma mulher para estar vestido.
Um filho que sabe limpar sua casa não precisa esperar uma mulher chegar para que o ambiente fique organizado.
Um filho que sabe cuidar de uma criança entende que paternidade não significa apenas brincar ou colocar dinheiro dentro de casa.
Ele aprende que cuidar também é responsabilidade.
Isso não tira nada de sua masculinidade.
Acrescenta autonomia à sua vida.
E não precisamos transformar isso em uma guerra entre homens e mulheres
Não é sobre dizer que homens são ruins ou que mulheres fazem tudo.
É sobre ensinar nossos filhos a compreenderem que uma família funciona melhor quando as pessoas assumem responsabilidades.
Existem famílias em que um trabalha mais fora e o outro assume mais tarefas dentro de casa.
Existem famílias em que os dois trabalham fora e dividem as tarefas.
Existem momentos em que um dos dois está doente, desempregado ou estudando e a divisão precisa mudar.
A vida real é dinâmica.
Por isso, mais importante do que ensinar uma divisão rígida é ensinar responsabilidade, conversa, cooperação e respeito.
O menino que aprende a cuidar da casa está aprendendo muito mais
Ele está aprendendo que não existe tarefa “de mulher” ou “de homem” quando se trata de cuidar da própria vida.
Está aprendendo que ninguém nasceu para servir outra pessoa.
Está aprendendo que morar com alguém significa construir uma vida em conjunto.
Está aprendendo que uma futura companheira não será sua empregada.
E está aprendendo que ser pai significa participar do cuidado dos filhos, não apenas ser aquele que brinca quando sobra tempo.
Um estudo com meninos e meninas adolescentes também encontrou diferenças persistentes na quantidade e no tipo de trabalho doméstico realizado: meninas tendem a realizar mais tarefas rotineiras, como cozinhar, limpar e lavar louça, enquanto meninos aparecem mais associados a tarefas tradicionalmente masculinizadas.
É justamente esse padrão que podemos começar a questionar dentro de casa.
Que homem queremos ajudar a formar?
Talvez essa seja a pergunta mais importante.
Queremos criar um homem que saiba cobrar de uma mulher aquilo que ele nunca aprendeu a fazer?
Ou queremos criar um homem que saiba cuidar da própria vida?
Queremos que nosso filho procure uma mulher para fazer por ele aquilo que a mãe fazia?
Ou queremos que ele entre em um relacionamento sabendo
duas pessoas adultas dividem responsabilidades?
Educar um menino para a vida adulta é muito mais do que ensiná-lo a estudar e trabalhar.
É ensinar a viver.
É ensinar a cozinhar.
É ensinar a limpar.
É ensinar a cuidar.
É ensinar a respeitar.
É ensinar a dividir.
É ensinar que pedir ajuda não diminui ninguém.
E, principalmente, é ensinar que masculinidade não está naquilo que um homem se recusa a fazer dentro de casa.
Um homem não se torna menos homem porque lava uma louça.
Não fica menos masculino porque troca uma fralda.
Não perde sua força porque cozinha para a família.
Não deixa de ser homem porque limpa o banheiro.
Ele simplesmente está cuidando da própria vida e das pessoas que fazem parte dela.
E talvez esse seja um dos maiores presentes que podemos dar aos nossos filhos homens:
ensiná-los a não procurar uma mulher para servi-los, mas a construir, ao lado de uma mulher, uma vida na qual os dois possam viver e cuidar juntos.
Autor- Lucia Martins
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