Não existe um adolescente igual ao outro.
Mesmo dentro da mesma família, dois filhos podem passar pela adolescência de maneiras completamente diferentes.
Por isso, não podemos criar um manual baseado apenas em uma experiência.
Precisamos conhecer nossos filhos.
Observar.
Conversar.
Perguntar.
Ouvir.
Colocar limites.
Reavaliar quando necessário.
E, principalmente, estar presentes.
Eu aprendi que ser mãe de adolescente não significa ter todas as respostas.
Significa ter disposição para procurar as respostas.
Foi isso que fiz quando meu filho mais velho chegou à adolescência.
Eu não sabia como seria.
Mas eu sabia que queria fazer diferente.
E foi justamente por não saber que comecei a estudar.
Porque, quando queremos fazer diferente daquilo que recebemos, precisamos buscar novas ferramentas.
Não precisamos ser mães perfeitas.
Precisamos ser mães presentes, dispostas a aprender, capazes de reconhecer nossos próprios erros e abertas para entender que nossos filhos estão crescendo.
A adolescência passa.
O filho cresce.
Um dia, aquele adolescente que discutia por causa do horário de voltar para casa será um adulto tomando suas próprias decisões.
E aquilo que ficou da nossa relação não será apenas se ele obedeceu ou não às nossas regras.
Será também a maneira como ele se sentiu dentro da própria casa.
Se ele encontrou respeito.
Se encontrou limites.
Se encontrou diálogo.
Se encontrou responsabilidade.
E, principalmente, se soube que, mesmo quando errasse, poderia voltar para casa e conversar.
Porque educar um filho não é simplesmente ensinar a obedecer.
É preparar uma pessoa para a vida.
Lucia Martins
Ensinar nossos filhos sobre o amor também é ensinar sobre respeito
Existe uma conversa que nós, pais, precisamos ter com nossos filhos muito antes de eles entrarem em um relacionamento sério.
Precisamos ensinar nossas filhas que elas não precisam permanecer ao lado de alguém que as humilha, controla, ameaça, diminui ou faz com que tenham medo. E precisamos ensinar nossos filhos que nenhuma mulher deve ser tratada dessa maneira.
Isso não começa quando aparece a primeira agressão física. Começa muito antes.
Começa quando ensinamos uma menina que amor não é sofrimento constante, que ciúme não é prova de amor, que controle não é cuidado e que ela não precisa aceitar desrespeito para não ficar sozinha.
E começa também quando ensinamos um menino que uma mulher não pertence a ele.
Que ela pode dizer não.
Que ela pode terminar um relacionamento.
Que ela pode ter amigos, estudar, trabalhar, sair, escolher suas próprias roupas, ter suas próprias opiniões e construir sua própria vida.
E que nenhuma dessas escolhas dá a ele o direito de controlá-la.
O que estamos ensinando dentro de casa?
Muitas vezes pensamos que nossos filhos aprenderão sobre relacionamentos apenas quando começarem a namorar. Mas eles já estão aprendendo muito antes disso.
Observam como os adultos conversam.
Como resolvem conflitos.
Como tratam uns aos outros quando estão com raiva.
Aprendem o que significa respeito observando o respeito — ou a falta dele — dentro de casa.
Por isso, educar para relacionamentos saudáveis não significa apenas dizer à filha: “Não aceite que um homem bata em você”.
É ensinar a reconhecer os sinais que podem aparecer antes da agressão física: humilhação, ameaças, isolamento, controle, chantagem, pressão sexual, invasão de privacidade e comportamentos destinados a causar medo ou controlar o parceiro.
O Centers for Disease Control and Prevention (CDC) considera a violência no namoro adolescente um problema de saúde pública e inclui entre suas formas a violência física e sexual, a agressão psicológica e a perseguição. O órgão também destaca que relacionamentos não saudáveis podem começar cedo e ter consequências ao longo da vida.
E os nossos filhos homens?
Essa parte também precisa ser dita.
Não devemos educar nossos meninos apenas para “não bater em mulher”.
Precisamos ensiná-los algo muito maior: respeitar o outro ser humano.
Um menino precisa aprender que sentir raiva não autoriza agressão.
Que frustração não autoriza humilhação.
Que ciúme não autoriza controle.
Que rejeição não é uma ofensa.
Que terminar um relacionamento não transforma a outra pessoa em inimiga.
Que masculinidade não precisa ser demonstrada através de domínio, força ou medo.
E que pedir desculpas não apaga automaticamente uma violência.
Isso também é educação.
O projeto STRONG, desenvolvido por pesquisadores da Northeastern University e parceiros, foi criado justamente para trabalhar com meninos adolescentes e seus pais questões como saúde dos relacionamentos, comunicação e regulação das emoções. O estudo avaliou uma intervenção com meninos do 7º e 8º ano e encontrou resultados iniciais promissores na prevenção de comportamentos de violência no namoro.
Não devemos criar meninas para suportar e meninos para dominar
Talvez uma das coisas mais importantes que possamos ensinar seja esta:
Nossa filha não precisa provar que ama alguém suportando aquilo que a machuca.
Ela não precisa permanecer em um relacionamento porque tem medo de ficar sozinha.
Não precisa acreditar que conseguirá mudar alguém que a agride.
Não precisa diminuir seus sonhos para caber na vida de outra pessoa.
E nossos filhos precisam aprender exatamente o contrário do que tantas vezes foi ensinado às gerações anteriores: uma mulher não deve ser controlada para ser amada.
Ela deve ser respeitada.
O papel dos pais começa antes do namoro
A ciência da prevenção também aponta para a importância da participação dos pais.
Uma revisão publicada em Aggression and Violent Behavior, com pesquisadores da Northeastern University e da Warren Alpert Medical School of Brown University, analisou iniciativas de prevenção da violência no namoro baseadas nos pais e nas famílias. Os autores destacam que os pais têm papel importante no desenvolvimento dos relacionamentos dos adolescentes.
O próprio CDC desenvolveu o Dating Matters, um modelo de prevenção que trabalha com adolescentes de 11 a 14 anos e também inclui programas para os pais, ensinando comunicação positiva e conversas sobre relacionamentos saudáveis.
Isso nos mostra algo importante: não precisamos esperar um relacionamento se tornar abusivo para conversar sobre respeito.
A conversa pode começar muito antes.
Que tipo de homem estamos ajudando a formar?
Talvez essa seja uma pergunta que todo pai e toda mãe de menino devessem fazer.
Estamos ensinando nosso filho a conquistar uma mulher ou a respeitá-la?
Estamos ensinando que ele precisa “ter” alguém ou que precisa construir uma relação baseada em liberdade, confiança e respeito?
Estamos ensinando que perder uma pessoa é doloroso, mas não dá a ninguém o direito de ameaçar, perseguir ou ferir?
E, quando educamos nossas meninas, também precisamos perguntar:
Estamos ensinando nossa filha a amar ou estamos ensinando-a a suportar?
Estamos ensinando que ela merece respeito mesmo quando está apaixonada?
Estamos ensinando que pedir ajuda não é fraqueza?
O amor não deveria exigir que alguém desaparecesse para caber na vida do outro
Relacionamento saudável não significa ausência de conflitos.
Duas pessoas podem discordar, ficar frustradas e até decidir terminar.
O que não pode fazer parte de uma relação saudável é o medo.
Amar alguém não significa possuir essa pessoa.
Ser homem não significa dominar uma mulher.
Ser mulher não significa suportar um homem.
E ser pai ou mãe não significa apenas proteger nossos filhos dos perigos que existem fora de casa.
Também significa prepará-los para reconhecer aquilo que não deve ser normalizado dentro de uma relação.
Porque criar filhos também é formar adultos.
E talvez uma das maiores heranças que possamos deixar para eles seja a capacidade de amar sem ferir, discordar sem destruir, terminar sem perseguir e conviver sem precisar controlar.
Ensinar respeito é uma forma de prevenção.
Ensinar limites é uma forma de proteção.
Ensinar nossas meninas que elas não precisam aceitar menos do que respeito é uma forma de fortalecê-las.
E ensinar nossos meninos que uma mulher nunca lhes pertence é uma forma de ajudá-los a se tornarem homens capazes de construir relações baseadas em respeito, responsabilidade e humanidade.
Autor Lucia Martins
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